Fontes comprometidas: ambiguidades e impasses pedológicos em Moçambique

Como posicionar uma pesquisa quando o fundiário é simultaneamente campo de conhecimento e campo de batalha? Que instrumentos, métodos e fontes, são ao mesmo tempo aceitáveis (para os habitantes), produtivos (capazes de gerar novos saberes), e justos (em condições de reduzir as desigualdades sociais)...

Cur síos iomlán

Sábháilte in:
Sonraí bibleagrafaíochta
Foilsithe in:URI:https://journals.openedition.org/sources,
Príomhchruthaitheoir: Leblond, Nelly
Formáid: Article ou chapitre numérique
Teanga:Portugais
Foilsithe / Cruthaithe: Sources 2024
Ábhair:
Rochtain ar líne:Accès Université d'Orléans et IFPM
Accès Université d'Orléans et IFPM
Cur síos
Achoimre:Como posicionar uma pesquisa quando o fundiário é simultaneamente campo de conhecimento e campo de batalha? Que instrumentos, métodos e fontes, são ao mesmo tempo aceitáveis (para os habitantes), produtivos (capazes de gerar novos saberes), e justos (em condições de reduzir as desigualdades sociais)? Este artigo propõe uma incursão nas ciências do solo (pedologia) em Moçambique. Em 2014, uma recolha de amostras de solo foi conduzida pelo Centro agroflorestal da Faculdade de Agricultura da Universidade Católica de Moçambique (UCM) num contexto de investimento agrícola controverso e de expropriação de terras das comunidades rurais. Esta abordagem é concebida como um compromisso que permitirá documentar a ocupação actual das terras (e, por conseguinte, defender o seu estatuto fundiário comunitário se necessário), mobilizando simultaneamente procedimentos reconhecidos pelos actores dominantes (administrações, ministérios, agências de desenvolvimento e investidores). Paralelamente, a observação de uma campanha pedológica realizada por uma empresa algodoeira, que obteve um título de uso da terra em 2014, e a análise das reacções dos habitantes em relação às intervenções fundiárias, realizadas entre 2014 e 2017, permitem documentar a prática e a recepção da pedologia in situ.Os métodos analíticos e a ambiguidade da recolha de tarolos do solo parecem comprometer esta fonte. Os obstáculos são muitos antes de poder afastar o fundamento eminentemente utilitarista e finalmente colonial da pedologia: campus universitário isolado e sub-financiado, desconfiança dos habitantes em relação a abordagens que os prejudicaram no passado, utilização de trados, tanto pelos investidores como pelos cientistas e, de um modo mais geral, a situação de colonialidade do saber e do poder que coloca a investigação académica em posição subalterna.O estudo deste insucesso permite abordar as margens de manobra e os constrangimentos do conhecimento especializado aplicado, e discutir um modelo de ciência centrado em publicações e nas redes que conseguem produzir resultados. Ao analisar empiricamente os compromissos e o comprometimento de uma fonte, o artigo aborda as razões de uma ausência e as reticências face a certos projectos de conhecimento. Isto permite questionar os «vazios» de dados e interrogar a forma de produzir fontes.